Numa viagem recente ao Bangladesh, mais concretamente à região de Sylhet, deparámo-nos com uma realidade difícil de ignorar — ainda que, muitas vezes, silenciosa.
Ao tentarmos aprofundar o conhecimento sobre as condições de trabalho locais no setor têxtil, rapidamente percebemos um padrão: a informação é escassa, e as pessoas evitam falar. Existe um ambiente marcado por um controlo apertado, onde os mais poderosos mantêm o domínio, e os mais desfavorecidos continuam a ser explorados com salários extremamente baixos e poucas perspetivas de melhoria.
Embora não tenhamos identificado fábricas têxteis em Sylhet, as ruas estão repletas de lojas de roupa e calçado, muitas das quais vendem marcas conhecidas — à vista de todos, em bancas improvisadas ou pequenas lojas de rua.
Um dos aspetos mais marcantes é a presença de crianças muito jovens a trabalhar como vendedores nestes espaços. Esta realidade, tão visível quanto normalizada localmente, leva-nos a uma pergunta essencial:
Como podemos continuar a consumir moda, sabendo que tantas vezes ela assenta na infância sacrificada de alguém?
Não se trata de culpar. Trata-se de repensar.
Este não é um texto para apontar o dedo. É, sim, um convite à reflexão consciente:
– O que podemos fazer, enquanto consumidores, para causar impacto real na mudança? – Que papel têm as marcas, os criadores e as empresas na construção de modelos de produção mais justos e transparentes?
– Como podemos apoiar modelos que promovam o trabalho digno, a educação e a formação local, em vez de perpetuar ciclos de exploração?
Um futuro diferente é possível
O futuro da moda pode ser construído de forma diferente — sem perder o seu papel essencial para o ser humano e para a sociedade. As escolhas conscientes na qualidade dos tecidos e na intenção por trás de cada peça de vestuário tornam-se pilares de um novo paradigma: o Eco Fashion. Uma moda que se guia pela ética, pela responsabilidade e pela durabilidade, criando um guarda-roupa versátil, útil e alinhado com a identidade de quem o veste — em qualquer fase da vida ou contexto pessoal.
Os têxteis estão presentes em quase todos os aspetos do nosso quotidiano: proporcionam conforto, saúde, beleza e higiene. São uma extensão do nosso corpo e, muitas vezes, um reflexo da nossa alma. Por isso, vestir é muito mais do que cobrir — é expressar quem somos.
Se quisermos escolher diferente, para obter resultados diferentes, temos de começar por olhar de frente para estas realidades e identificar padrões de consumo rápido, ineficiente e inconscientemente impulsivo. Só assim poderemos abrir espaço para alternativas diferentes que podem ser largamente mais duradouras, significantes sustentáveis, humanas e verdadeiramente transformadoras.
A ReVersão começa aqui: ao decidir e ao agir de forma diferente, ao agir na polaridade oposta.













